O trabalho realizado no Ministério das Cidades a partir de 2003 é
reconhecido por especialistas como o retorno do planejamento em
mobilidade urbana no Brasil. Mesmo que muitas vezes os investimentos não
consigam ser utilizados na velocidade desejada, é quase uma unanimidade
que a partir de 2003 o Governo Federal voltou a pensar na mobilidade
das grandes cidades e investir milhões de reais em projetos de
melhorias. Só dentro do Programa de Aceleração do Crescimento há três
linhas de financiamento: PAC Copa do Mundo, PAC Grandes Cidades e PAC
Médias Cidades.
Segundo o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, a prioridade do
Governo Federal é o transporte coletivo. "O planejamento do Governo
Federal é no sentido de priorizar os modos de transporte coletivo. Para
isso, os investimentos estão direcionados para a melhoria dos sistemas
de forma integrada, com a política de desenvolvimento urbano, para
proporcionar o acesso amplo e democrático ao espaço urbano, de forma
segura, socialmente inclusiva e sustentável", aponta o ministro.
Tribuna do Norte: Que avanços na área de infraestrutura de mobilidade
estão programados para os próximos anos? Quais os principais programas
do ministério hoje?
Aguinaldo Ribeiro: A mobilidade urbana é uma das prioridades do Governo
Federal. Em abril deste ano, o Ministério das Cidades selecionou 43
projetos, em 23 municípios acima de 700 mil habitantes, para receber R$
22 bilhões no Programa de Aceleração do Crescimento 2 (PAC2) Mobilidade
Grandes Cidades. No total, 51 municípios serão beneficiados diretamente,
em 18 estados, para atender mais de 53 milhões de brasileiros. Os
projetos são: construção de metrô, Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs) e
corredores de ônibus.
Essas mesmas obras estão previstas no PAC 2 Mobilidade Médias Cidades,
lançado pelo Governo Federal, em julho deste ano. A idéia é evitar que
as cidades com 250 mil a 700 mil habitantes sofram os problemas que hoje
já afetam os grandes centros urbanos. Os recursos são da ordem de R$ 7
bilhões. Também foram alocados mais R$ 3 bilhões para financiar a 1ª
etapa do PAC 2 Pavimentação e Qualificação de Vias Urbanas.
Para a Copa do Mundo 2014, o Governo Federal destinou R$ 8 bilhões, para
projetos de mobilidade urbana, 87% financiados com recursos do FGTS. Os
13% restantes são com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT),
perfazendo o montante de R$ 12 bilhões, incluindo contrapartida.
Portanto, a partir de 2010, houve um grande salto no volume de recursos
destinados às ações de mobilidade urbana. Se considerarmos que, nos
grandes centros urbanos, uma pessoa gasta até quatro horas por dia no
trajeto casa-trabalho, em muitos casos, as obras previstas diminuirão
esse tempo significativamente. Em muitas situações, ao invés de quatro
horas, será possível fazer o mesmo trajeto em apenas uma hora. Isto
significa menos três horas por dia, 18 horas por semana, três dias a
menos de trânsito por mês. Ou seja, mais de um mês, por ano, de vida
para que as pessoas que dependem de transporte público possam usar esse
tempo de uma forma muito mais produtiva e humana.
TN: A crise econômica internacional pode diminuir o ritmo de
investimentos do país em obras de infraestrutura? Existe essa
perspectiva?
AR: Na área de transporte e mobilidade urbana, provavelmente, não haverá
redução do ritmo dos investimentos previstos em virtude de serem, na
maioria, recursos não orçamentários, advindos de financiamento. O eixo
do PAC que utiliza recursos do Orçamento Geral da União (OGU) é o PAC 2
Mobilidade Grandes Cidades. A inserção dessas obras no PAC já
caracteriza priorização de recursos.
TN: O Ministério tem estudos acerca do impacto das obras de
mobilidade no país? Quais as principais melhorias de infraestrutura no
país? E em Natal?
AR: Está em estudo a implantação de um sistema de dados sobre mobilidade
urbana para sistematizar informações do país. Os projetos selecionados
no PAC Mobilidade Grandes Cidades e no PAC Mobilidade Médias Cidades tem
como prioridade realizar obras que possam impactar diretamente na vida
da população, para melhorar a qualidade de vida nos grandes e médios
municípios. Portanto, o governo prioriza obras de implantação de
corredores exclusivos para ônibus, VLTs, implantação e readequação de
vias, estações, terminais e sistemas de monitoramento de controle de
tráfego, além de sistemas metroviários e aquaviário. Em Natal, o Governo
Federal investe na revitalização da Linha do VLT Ribeira/Extremoz R$
136 milhões e na reestruturação de corredores exclusivos para ônibus R$
104 milhões.
TN: O desembolso desses financiamentos tem acontecido de forma
constante? Há atrasos na entrega de projetos? Quais os mais atrasados?
Qual o motivo desses atrasos?
AR: Os desembolsos dos contratos de financiamento dos empreendimentos
associados à Copa do Mundo FIFA 2014 têm sido realizados na medida em
que as obras estão sendo executadas pelos entes federados. O principal
entrave das obras dos entes federados refere-se à conclusão dos projetos
de engenharia e questões relacionadas aos deslocamentos involuntários,
como desapropriações, remoções e reassentamentos. Também houve a
necessidade de revisão das Matrizes de Responsabilidades, com o objetivo
de possibilitar readequações, oriundas do amadurecimento ou das
dificuldades encontradas no decorrer do desenvolvimento dos projetos.
TN: O cronograma de execução das obras da Copa em especial está,
segundo notícias e balanços divulgados recentemente na mídia, bastante
atrasado. Fala-se que dificilmente teremos tudo pronto até o evento.
Qual o motivo desse atraso em particular? Há perigo de que esses
investimentos fiquem apenas na promessa?
AR: Como a União atua com recursos descentralizados para os municípios,
estados e Distrito Federal, seja por meio de repasse de recursos do OGU
ou viabilizando financiamentos, entende-se que a ação deve ser conjunta,
com esforço e comprometimento de cada uma das partes para viabilizar,
dentro do cronograma, a execução de obras de infraestrutura de
mobilidade urbana, que realmente venham a contribuir para a melhoria nos
grandes centros. Trata-se de compromissos firmados entre o Governo
Federal com estados e municípios, por isso mesmo, não podem deixar de
serem cumpridos.
TN: É praticamente consenso entre especialistas a necessidade de
investimento em transporte ferroviário tanto na parte de cargas quanto
de transporte coletivo urbano. No entanto, segundo os mesmos
especialistas, o país investe pouco. Por que isso acontece? Há
perspectiva de um incremento nesse modal?
AR: No âmbito do Ministério das Cidades a seleção efetuada no PAC 2
Mobilidade Grandes Cidades (cidades com população superior a 700.000
habitantes) incluiu diversos trechos de sistemas metroviários e Veículo
Leve sobre Trilhos (VLT), para estimular o transporte público coletivo
urbano sobre trilhos, de alta e média capacidade, com conforto e
segurança aos usuários.
Um dos principais programas que financia os investimentos para o setor
público e privado em mobilidade urbana no país é o Pró-Transporte, que
tem o objetivo de implantar sistemas de infraestrutura do transporte
coletivo urbano. Esse programa prioriza o transporte sobre trilhos, com
condições de financiamento melhores para este modal.
TN: Qual o planejamento do Governo Federal para ajudar as grandes
cidades a combaterem os gargalos do trânsito? A insistência no
transporte automotivo individual é um empecilho?
AR: O planejamento do Governo Federal é no sentido de priorizar os modos
de transporte coletivo. Para isso, os investimentos estão direcionados
para a melhoria dos sistemas de forma integrada, com a política de
desenvolvimento urbano, para proporcionar o acesso amplo e democrático
ao espaço urbano, de forma segura, socialmente inclusiva e sustentável. A
Lei n° 12.587, sancionada em 03 de janeiro de 2012, e publicada no
Diário Oficial de União de 04 de janeiro de 2012, estabeleceu a Política
Nacional da Mobilidade Urbana. O objetivo da norma é contribuir para o
acesso universal à cidade por meio do planejamento e da gestão
democrática do Sistema Nacional de Mobilidade Urbana. Essa lei define
que o transporte coletivo tem prioridade em relação ao transporte
individual motorizado. As suas diretrizes terão efetividade, a partir da
elaboração dos planos de mobilidade pelos municípios, com mais de 20
mil habitantes. O aumento do poder aquisitivo da população e o
conseqüente aumento do transporte automotivo individual é um dos óbices a
serem superados, no médio e longo prazo, com os investimentos já
previstos em mobilidade urbana, que proporcionarão um transporte público
de qualidade para a população.
Fonte:
Tribuna do Norte